quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Despossuídos


Parado no sinal, na biqueira de casa
O trânsito transborda, é congestionamento no trecho do mar
Estou com pressa, mas não posso voar
Estou estressado, mas não posso matar
A lei é severa, se faz presente em ato repressivo
O Estado mete a mão abstrata no bolso do depressivo
A manada silencia, paga a multa mimosamente
Como zumbis nas estradas esburacadas da história
Os vigaristas e os devotos sonegam massivamente
Criticam o sistema pela falta de lógica preventiva
Mas estão todos amenos e brandos, montados na canabis ativa
Por muito menos a multidão foi pra rua
Manipulados pelos meninos, na esquina do teatro da paulista
As nossas custas, patrocinaram o coice
Insatisfeitos com o privilégio dos pobres
Gritaram asneiras patrióticas em nome da exclusividade dos nobres
Os nobres da zona sul, da corte e da burguesia
Os pobres da marginal, do gueto da prelazia
O zé ninguém, membro da trupe dos contingentes de despossuídos:
O idoso, o negro, o imigrante sem dignidade, refugiado em sua própria agonia
O humano desapropriado de qualquer humanidade
Que procura comida na lixeira, como um animal irracional
O racional atiça o animal de sua propriedade: a lixeira com o seu lixo
O lixo tem dono, o animal sem pedigree não tem natal
Se fosse um vira lata, pelo menos, seria objeto de moção
Mais do que isso, seria digno de um pedaço de pão
Mas, como é apenas um despossuído, ignora-se o tal
O humano tem mais o que fazer: se estressar com o pardal.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Patobotização

Ainda hoje me pego surpreso com o nível excessivo de adestramento de algumas pessoas que insistem em seguir uma lógica padronizada e positivista de comportamento humano, como se fossem verdadeiros animais robotizados, cuja conduta diária segue a mais disciplinada das reverberações. E o pior disso tudo não é a automutilação do sujeito quadrado. O mais terrível é a incapacidade da pessoa de perceber que a sua conduta não deve servir de parâmetro ou de regra para mais ninguém, a não ser para si própria, bem como a indelicadeza incompreensiva ao querer impor a sua demência conceitual e estética a terceiros. Veja bem, preste atenção, da sua vida "exemplar" e egoísta você faz o que bem entender. Agora não tente impor o seu estilo quadrado e nojento como termômetro de mensuração ao estilo de vida do outro. Quando você julga a conduta e o relacionamento dos coleguinhas antipáticos, por exemplo, você está utilizando-se de um olhar etnocêntrico para julgar a performance de vida alheia, a partir do que você abraçou como ideal. Se você quer seguir esse estilo padrão, conservador e "patobotizado", e tem consciência disso como elementos basilares para o alcance subjetivo de sua felicidade e do seu cabeça de papel, beleza, parabéns, siga em frente. Mas, pare de se colocar como a força motriz do exemplo ímpio de perfeição, pois da minha perspectiva progressista, você não passa de um cão adestrado, egoísta, racista, impositiva e elitista, a serviço da perpetuação do coronelismo contemporâneo. Ou seja, da minha parte, não há nada em você digno de aplausos. Porém, apesar disso, vou respeitar você, desde que não insista em querer impor o seu estilo quadrado em detrimento a vida redonda dos outros. Vamos respeitar as diferenças, pois cada um é cada um. Portanto, marcha soldado!

Edit.: Desculpe-me pelo uso delimitado de falas e expressões etnocêntricas. Fez parte da narrativa combativa, muito bem especificado.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Paradoxo


Esse povo extrovertido, em suma brancos e empoderados, forma o batalhão de outsiders da vibe progressista, dos delírios da curtição exacerbada, que curte a contemporaneidade ao som da vitrola, que tem o dom do ecletismo fugaz, que passeia pela transitoriedade fixa dos gêneros e das mariolas, que enaltece o Deus Apolo, mas denega o saber comum. Essa gente que critica o modismo ao mesmo tempo em que venera o diletantismo excludente. Essa gente que ensaia a narrativa da alteridade em atos que renegam a diferença. Essa gente que no campo inteligível defende a empatia e a democratização do acesso em contraposição a exclusividade, mas que no campo sensível adora o privilégio do uso, do acesso e do atendimento... Que adora um rolê retrô e cult, desde que não seja frequentado por todos e todas, pois é preciso manter a áurea da vanguarda repleta de caricaturas, de frequentadores padrão classe média com roupagem revolt, paz e amor, que vende uma vida independente e autossuficiente, proveniente do esforço próprio, do trabalho clichê do fluxo dos deslocados e das populações “exóticas”. Estes que se encontram em pleno lavrado, com as vidas paradas, em nome de um ideal maior, isto é, a longa jornada responsável por rechear o currículo de uma vida profissional em formação, por meio de uma experiência única, em um verdadeiro laboratório a céu aberto. Com o coração pulsante diante do trabalho árduo em prol das minorias, mas com a cabeça na Capital do Rock e na Terra da Garoa. Ora, não é fácil tirar onda de militante especialista no meio do caos: o vazio de uma vida distante.

Edit.: Somos todos incoerentes!


segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Pai

No dia dos pais, eu fiz o seguinte questionamento: “ser pai implica aceitar todo e qualquer filho, independente da índole do mesmo?

Bom, o meu questionamento teve, evidentemente, a intenção de tocar em um ponto pouco discutido, mas muito em voga na prática diária das relações interpessoais de muitos entes familiares, que na surdina da casa, no silêncio da hipocrisia familiar consegue esconder e disfarçar as intrigas pujantes, as lutas frequentes com o seu demônio interior [com todo o direito]. Até que ponto devo passar a mão na cabeça, defender cegamente e ultrapassar todas as barreiras de minha moral seletiva para apaziguar um pedaço de mim, sangue do meu sangue? Existe um limite ou a defesa é incondicional e independe de qualquer coisa ou fato? Não tenho filho, portanto, imagino que qualquer coisa que eu venha a afirmar, mesmo que racionalmente, seja objeto imediato de refutação, sob a alegação de a minha pessoa não ter competência para opinar, ou muito menos, a capacidade para se colocar no lugar de um pai. Mas, “bandido bom não é bandido morto”? Ou depende? Se for o filho do vizinho tudo bem? Para o “sujeito de bem”, o filho do vizinho é o capeta, mas, o meu filho - que pratica ilícitos proporcionalmente maiores - é o anjo da vovozinha. Já pensou se todo pai de bandido defendesse a sua cria sem um mínimo de respeito a ordem cambaleante vigente? “-- Ah! É meu filho, sangue do meu sangue, tenho a obrigação de ajudá-lo, mesmo que precise escondê-lo do poder de polícia!”  Tudo bem, mas por qual razão você não deu esse mesmo conselho ao seu vizinho quando o caçula dele furtou a sua residência na boca da noite?  Já vi tanto pai comemorando o nível de macheza do filho quando o mesmo engravidou a filha mais nova da vizinha, mas quando o coleguinha da escola engravidou a sua anjinha, ele obrigou o aborto e ainda foi tirar satisfação com o dono do mercadinho da moral e dos bons costumes da esquina.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Indireta


Vivemos a era da falsa devoção moral, do egoísmo viralizante nesse tempo de cólera formada por contingentes de despossuídos de bom senso, de razoabilidade, de parcimônia e empatia, onde cada uma quer ser mais exemplo do que o outro perante uma sociedade julgadora de condutas alheias, ao ponto de pautar a sua vida a partir do olha julgador dos coleguinhas. Cara, se eu erro, o problema é meu. Se o outro erra, o impasse é dele. Se o ser humano erra à luz de sua percepção, talvez ao olhar desse protagonista da ação, tal “erro” não passe de uma mera subversão de emoções pessoais latentes. Portanto, se é pessoal, diz respeito apenas ao sujeito envolvido na redoma. Vai cuidar do seu rabo preso e deixe a vida pessoal do outro em paz. Pare de se satisfazer com a safadeza alheia e procure dar dinamismo à sua vida parada e sem graça... É, a expressão “sem graça” soa aparentemente “forte e pesado”, mas é exatamente essa a impressão que eu tenho quando descubro que você vive gozando de entusiasmo ao descobrir ou propagar fuxico da vida sexual alheia. Deixe de lado esse ar de perfeição inalcançável que você insiste em exalar pelos corredores desertos da província. Isso é desastroso e cruel a pessoa que você é. Liberte-se e viva, mas não como está ilustrado nos manuais de autoajuda que você vive lendo. Jogue esses livros todos no lixo e siga os teus instintos mais intensos e selvagens. Eu sei que dentro dessa alma sebosa, julgadora e sem graça existe um fogo ardente que queima e dilacera o âmago da alma. Jogue fora essa “roupa feia”, dispa-se e sinta esse ardor propiciado pelo cheirinho de pólvora que passa pelo seu cangote e te arrepia.  

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Mico

É muito inacreditável observar nas redes sociais fantoches em forma de pessoas ou pessoas em forma de marionetes cambaleando em suas meias palavras mal intencionadas, na tentativa de justificar manobras descaradas de políticos neófitos, que brincam de governar na ânsia de se deliciar do banquete divino, restrito ao seu próprio clã, que em nada diferencia-se da corte dos reinados inimigos do passado. É sempre a mesma e velha história... Na composição do império, temos sempre os personagens principais: o rei, a rainha e os bobos da corte, que se contentam com as migalhas lançadas ao chão de giz. Em troca, precisam mostrar trabalho e simpatia as atitudes exageradas da megera domada. Ou seja, nessa época de virtualidades desvirtuadas, a atividade laboral dos bobos resume-se a compartilhar notícias favoráveis a corte e denegar meias mentiras propagadas pelos inimigos alados nas redes sociais. Pronto, agindo assim, posso garantir por mais quatro anos as migalhas que dignificam o homem em forma de bobo, este que não cansa de pagar mico na minha linha do tempo do facebook, só para garantir o pão que o diabo amassou. Até quando irmão você ficará preso a essa relação de vassalagem com a suserania? Se liga, pois você pode estar com a dignidade deturpada ao se prestar a defender a honra de seu político de estimação e abdicar da sua própria alforria.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Personagens

Ao observar de longe o lançamento de algumas pré-candidaturas aos mais diferentes cargos políticos, principalmente no contexto local, tenho a leve impressão, mas é bem de leve mesmo, que grande parte desses personagens militam na defesa da renovação no cenário político. No entanto, as narrativas e os arranjos esboçados na surdina desse espectro demonstram exatamente o contrário, isto é, que alguns desses atores são [na verdade] agentes herdeiros do que há de mais velho e sujo nesse nicho de purificação da conta bancária e dos interesses pessoais escusos. É isso mesmo, estamos ferrados com as velhas raposas e estamos fadados ao fracasso com essa nova leva de bons samaritanos, que no âmago da alma representam a mesma e arcaica politicagem adepta do corporativismo, do patrimonialismo e do desejo insano de ganhar a vida as custas do interesse público. Observem, analisem e concluam: são novos atores atrelados aos mesmos grupos de sempre, que surgem como uma opção a mais, porém, com um objetivo bem claro e definido de perpetuar os privilégios do clã. E olha que eu não estou me referindo aos aventureiros de plantão. Refiro-me aos personagens profissionais, que utilizam-se de toda uma estrutura e apoio de peso... Claro que não devemos generalizar... É preciso separar os "filhos do maligno" dos "filhos do reino". Mas está difícil. Portanto, cuidado com o zé bonitinho de amsterdam , cuidado com o Samy Dana do lavrado, cuidado com o candidato do povo caviar. Cuidado.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Maniqueísmo*


Na batalha do século XXI os homens sapiens digladiam-se em nome de um conjunto de ideias paradoxais. De um lado temos os defensores da moral singular, dos bons costumes da família tradicional brasileira, que se fundam em uma ideologia dita “conservadora”, típica do [controverso] “homem de bem”. Do outro lado da estrada subjaz aqueles causídicos da moralidade relativa, da liberdade plural e da diversidade cultural, fundamentando-se na ideologia dita “progressista”.

O arranca-toco fundado nesta frente dicotômica, mítica e, doravante, míope da direita e da esquerda vanguardista continua na estrada da vida real on e off-line. Com isso, as caixinhas ideológicas edificam-se e fortalecem-se cada vez mais, fomentando as polarizações de praxe e, consequentemente, propicia a cortina de fumaça para inviabilizar o debate que realmente importa ao bem-estar do povo e da sociedade, em seus diferentes segmentos.

Ora, hoje em dia se discute e se defende, intensamente, bandeiras telegrafadas por posições congeladas de um conservantismo impotente e não necessariamente por interesse de demanda, de modo flexível e potente. Em outras palavras, quero dizer que o andarilho raivoso das “ruas de bytes” do século XXI [termo de Eliana Brum] se prende muito a forma de ser e estar e ignora-se o conteúdo adjacente aos princípios básicos da convivência cidadã, o qual implica a noção de alteridade: reconhecimento, respeito, generosidade, compaixão, dentre outros, conforme pontua a filósofa Marcia Tiburi.

Em outras palavras, [no campo virtual] agride-se em nome da forma, desrespeita-se em nome da forma, exclui-se em nome da forma. Em contrapartida, a defesa ocorre em nome [também] da forma dialética da agressão, do seu contrário, limitando-se as narrativas diatópicas da direita e da esquerda. É quase tudo moldado na qualificação da “forma de ser conservador” ou da “forma de ser de progressista”, etc. Liturgicamente somos criados a partir de uma base ideológica excessivamente seletiva e excludente. Claro! Nós somos seletivos em quase tudo que fazemos e praticamos: a nossa revolta é seletiva, nossa solidariedade é seletiva, nossa educação é seletiva, nossa benevolência é seletiva, nossa oração é seletiva, inclusive a nossa hipocrisia cotidiana.

Às vezes tenho a impressão [de] que o sujeito é enganado por simples conveniência e, talvez, pela comodidade em permanecer na sonolência motivada pelo ambiente escuro. Neste caso, a luz incomodaria profundamente os seus olhos atrofiados pela beleza insuficiente das sombras, à guisa da alegoria do Mito da Caverna de Platão, muito bem poetizada na canção do Cartel MCs, “nesse mar de concreto, reproduz Ilhas de Capri, prédios são rochedos, ela canta e exala charme [...]” É o canto da sereia, bicho!”.

Neste contexto, me preocupo com determinadas crianças peculiares, ainda na faixa etária de Percy Jackson ou um pouco mais [adolescentes], que se abraçam fortemente em uma ideia de concreto, seduzidas pelo templo de olimpo, e singularizam jeitos e gestos e demonizam a diferença [o outro que não participa e compartilha de suas normas esotéricas]. Com excesso de ironia e deboche, tentam ridicularizar discursos e narrativas divergentes, às vezes até de modo suave, utilizando-se de seu soft power [ver Joseph Nyer] para propagar a cicuta que mata e dilacera o estomago de qualquer indivíduo em pleno gozo de sua consciência crítica, política e cidadã.

A peculiaridade dos seguidores de Perseu é tamanha que, ao argumentar, jorram discursos cirurgicamente forjados em uma verdadeira doutrina mani [queísta] do bem e do mal, como se no mundo existissem apenas dois lados de ideias bicolores, estilizado, inclusive, pela música “É preciso saber viver”, da Banda Titãs. “Se o bem e o mal existem, você pode escolher... É preciso saber viver!” Ou seja, pela lógica musical maniqueísta, a liberdade de expressão do sujeito limita-se a essa polaridade limítrofe do branco e do preto, do pensamento coxinha e da prática mortadela. E nesse ringue virtual a briga é para provar quem é o bom e quem é o mau, para além de Nietzsche.

*Texto publicado inicialmente e originalmente no Jornal Folha de Boa Vista, com o título "O caráter maniqueísta do pensamento contemporâneo dos andarilhos raivosos das ruas de bytes", em: 15 de junho de 2018. Disponível em: http://www.folhabv.com.br/coluna/Opiniao-15-06-2018/6393.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Odisseia*

Com dezessete anos, Montez Maduro, vulgo Montezinho, desceu a ladeira da vida e seguiu rumo ao pulmão do mundo para respirar novos ares, desbravar terras inóspitas e interagir com culturas alheias, na esperança de dias melhores, pra sempre. Sem olhar para trás, ignorou sua velha infância e tudo aquilo que um dia jurou presença eterna: sua mãe, Dona Francisca, seus irmãos gêmeos mais novos, Hugo e Chávez, seu cachorro, Argos e seus amigos do bairro de Agapito.

Montezinho partiu para uma verdadeira odisseia, sem lenço e sem documento, em um dia ensolarado de agosto. A temperatura estava muito alta, algo anormal para aquele período. Montezinho acordou cedo devido ao calor exagerado. Estava ensopado, transpirando água salgada de produção corporal própria. Morava em uma cabana quadrada, medindo quatro por quatro, de madeira velha, coberta por chapas de alumínio.

Levantou-se meio atordoado, olhou para o nada, pela única janela improvisada que havia no barraco. Depois desviou o olhar para o terreiro e avistou os seus irmãos engatinhando na terra seca e quente. Nesse momento, em um mix de angústia e desespero, não titubeou ao concluir que a fuga era a única alternativa plausível para um futuro, mesmo que incerto, pois permanecer naquele contexto de miserabilidade era sinônimo de fome e, principalmente, de vida curta.

Quando a dona Francisca chegou em casa, Montezinho já havia fugido. Diante de sua ausência, ela não chorou, não gritou, muito menos se desesperou. Na verdade, seu espírito materno desejava há muito tempo a fuga de seu primogênito, haja vista que essa evasão anunciada significaria um grito de esperança e de retorno para as gerações mais novas em um futuro não tão distante. Contudo, ao contar sobre os fatos recentes para a sua vizinha, dona MarisabelColmenares, ouviu como resposta um discurso estarrecedor e cruel.

Dona Colmenares afirmou categoricamente que Montezinho havia feito uma péssima escolha e por isso iria sofrer muito na nova morada, uma vez que o povo de lá era agressivo com gente de fora. Porém, Dona Francisca manteve-se otimista ao contra argumentar sua amiga.

– O corpo de Cristo deve aceitar os estrangeiros com braços abertos e tratá-los como iguais! Como um verdadeiro povo cristão, tenho fé que eles receberão de braços abertos meu filho amado, em nome do Senhor Jesus. Meu filho conseguirá um bom emprego e retornará para ajudar seus irmãos.

Há cem quilômetros de distância do ponto original, Montezinho seguia a pé, em baixo de um sol escaldante, à beira da principal rodovia que ligava um país ao outro. Ele pretendia seguir viagem caminhando a passos curtos, estava trabalhando o seu psicológico para isso, pois a essa altura, conseguiu perceber que, por sua condição de estrangeiro, não conseguiria carona nem com reza braba. Assim sendo, o andarilho logo encontrou companhia ao longo de sua jornada. Foi a partir dessa interação com os seus iguais que Montezinho conseguiu um gole de água e o mínimo de alimento necessário para prosseguir na diáspora.

Após cinquenta e quatro horas de caminhada, Montezinho chegou à capital de São Sebastião, reconhecida por amplas devoções e hipocrisias ínfimas. Ao reunir-se aos demais imigrantes na praça pública Simón Bolívar, sentiu o aroma dos ninguéns espalhados, famintos como os bichos enclausurados, com sonhos perdidos e a dignidade em flagelos. A sua ganância de uma vida farta havia se desmanchado no ar. Ele só queria um prato de comida, mas o marmitex estava sendo distribuído no outro lado da avenida circular de mão dupla.

Montezinho respirou fundo, buscou sua última força para conseguir atravessar poucos metros que mais pareciam quilômetros. Sua alma flutuou, ouve-se um urro de misericórdia, o automóvel parou como a batida de seu coração. Montezinho foi enterrado nu, como indigente em caixão aberto feito de compensado, na última quadra, no fim do outeiro do cemitério dos imigrantes.

*Texto publicado inicialmente e originalmente no Jornal Folha de Boa Vista, com o título "A odisseia de Montez", em: 08 de junho de 2018. Disponível em: http://www.folhabv.com.br/coluna/Opiniao-08-06-2018/6348.