sexta-feira, 15 de junho de 2018

Maniqueísmo*


Na batalha do século XXI os homens sapiens digladiam-se em nome de um conjunto de ideias paradoxais. De um lado temos os defensores da moral singular, dos bons costumes da família tradicional brasileira, que se fundam em uma ideologia dita “conservadora”, típica do [controverso] “homem de bem”. Do outro lado da estrada subjaz aqueles causídicos da moralidade relativa, da liberdade plural e da diversidade cultural, fundamentando-se na ideologia dita “progressista”.

O arranca-toco fundado nesta frente dicotômica, mítica e, doravante, míope da direita e da esquerda vanguardista continua na estrada da vida real on e off-line. Com isso, as caixinhas ideológicas edificam-se e fortalecem-se cada vez mais, fomentando as polarizações de praxe e, consequentemente, propicia a cortina de fumaça para inviabilizar o debate que realmente importa ao bem-estar do povo e da sociedade, em seus diferentes segmentos.

Ora, hoje em dia se discute e se defende, intensamente, bandeiras telegrafadas por posições congeladas de um conservantismo impotente e não necessariamente por interesse de demanda, de modo flexível e potente. Em outras palavras, quero dizer que o andarilho raivoso das “ruas de bytes” do século XXI [termo de Eliana Brum] se prende muito a forma de ser e estar e ignora-se o conteúdo adjacente aos princípios básicos da convivência cidadã, o qual implica a noção de alteridade: reconhecimento, respeito, generosidade, compaixão, dentre outros, conforme pontua a filósofa Marcia Tiburi.

Em outras palavras, [no campo virtual] agride-se em nome da forma, desrespeita-se em nome da forma, exclui-se em nome da forma. Em contrapartida, a defesa ocorre em nome [também] da forma dialética da agressão, do seu contrário, limitando-se as narrativas diatópicas da direita e da esquerda. É quase tudo moldado na qualificação da “forma de ser conservador” ou da “forma de ser de progressista”, etc. Liturgicamente somos criados a partir de uma base ideológica excessivamente seletiva e excludente. Claro! Nós somos seletivos em quase tudo que fazemos e praticamos: a nossa revolta é seletiva, nossa solidariedade é seletiva, nossa educação é seletiva, nossa benevolência é seletiva, nossa oração é seletiva, inclusive a nossa hipocrisia cotidiana.

Às vezes tenho a impressão [de] que o sujeito é enganado por simples conveniência e, talvez, pela comodidade em permanecer na sonolência motivada pelo ambiente escuro. Neste caso, a luz incomodaria profundamente os seus olhos atrofiados pela beleza insuficiente das sombras, à guisa da alegoria do Mito da Caverna de Platão, muito bem poetizada na canção do Cartel MCs, “nesse mar de concreto, reproduz Ilhas de Capri, prédios são rochedos, ela canta e exala charme [...]” É o canto da sereia, bicho!”.

Neste contexto, me preocupo com determinadas crianças peculiares, ainda na faixa etária de Percy Jackson ou um pouco mais [adolescentes], que se abraçam fortemente em uma ideia de concreto, seduzidas pelo templo de olimpo, e singularizam jeitos e gestos e demonizam a diferença [o outro que não participa e compartilha de suas normas esotéricas]. Com excesso de ironia e deboche, tentam ridicularizar discursos e narrativas divergentes, às vezes até de modo suave, utilizando-se de seu soft power [ver Joseph Nyer] para propagar a cicuta que mata e dilacera o estomago de qualquer indivíduo em pleno gozo de sua consciência crítica, política e cidadã.

A peculiaridade dos seguidores de Perseu é tamanha que, ao argumentar, jorram discursos cirurgicamente forjados em uma verdadeira doutrina mani [queísta] do bem e do mal, como se no mundo existissem apenas dois lados de ideias bicolores, estilizado, inclusive, pela música “É preciso saber viver”, da Banda Titãs. “Se o bem e o mal existem, você pode escolher... É preciso saber viver!” Ou seja, pela lógica musical maniqueísta, a liberdade de expressão do sujeito limita-se a essa polaridade limítrofe do branco e do preto, do pensamento coxinha e da prática mortadela. E nesse ringue virtual a briga é para provar quem é o bom e quem é o mau, para além de Nietzsche.

*Texto publicado inicialmente e originalmente no Jornal Folha de Boa Vista, com o título "O caráter maniqueísta do pensamento contemporâneo dos andarilhos raivosos das ruas de bytes", em: 15 de junho de 2018. Disponível em: http://www.folhabv.com.br/coluna/Opiniao-15-06-2018/6393.

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