Na batalha do século XXI os homens
sapiens digladiam-se em nome de um conjunto de ideias paradoxais. De um lado
temos os defensores da moral singular, dos bons costumes da família tradicional
brasileira, que se fundam em uma ideologia dita “conservadora”, típica do
[controverso] “homem de bem”. Do outro lado da estrada subjaz aqueles
causídicos da moralidade relativa, da liberdade plural e da diversidade
cultural, fundamentando-se na ideologia dita “progressista”.
O arranca-toco fundado nesta frente
dicotômica, mítica e, doravante, míope da direita e da esquerda vanguardista
continua na estrada da vida real on e off-line. Com isso, as caixinhas
ideológicas edificam-se e fortalecem-se cada vez mais, fomentando as
polarizações de praxe e, consequentemente, propicia a cortina de fumaça para
inviabilizar o debate que realmente importa ao bem-estar do povo e da
sociedade, em seus diferentes segmentos.
Ora, hoje em dia se discute e se
defende, intensamente, bandeiras telegrafadas por posições congeladas de um conservantismo
impotente e não necessariamente por interesse de demanda, de modo flexível e
potente. Em outras palavras, quero dizer que o andarilho raivoso das “ruas de
bytes” do século XXI [termo de Eliana Brum] se prende muito a forma de ser e
estar e ignora-se o conteúdo adjacente aos princípios básicos da convivência
cidadã, o qual implica a noção de alteridade: reconhecimento, respeito,
generosidade, compaixão, dentre outros, conforme pontua a filósofa Marcia
Tiburi.
Em outras palavras, [no campo virtual]
agride-se em nome da forma, desrespeita-se em nome da forma, exclui-se em nome
da forma. Em contrapartida, a defesa ocorre em nome [também] da forma dialética
da agressão, do seu contrário, limitando-se as narrativas diatópicas da direita
e da esquerda. É quase tudo moldado na qualificação da “forma de ser
conservador” ou da “forma de ser de progressista”, etc. Liturgicamente somos
criados a partir de uma base ideológica excessivamente seletiva e excludente.
Claro! Nós somos seletivos em quase tudo que fazemos e praticamos: a nossa
revolta é seletiva, nossa solidariedade é seletiva, nossa educação é seletiva,
nossa benevolência é seletiva, nossa oração é seletiva, inclusive a nossa
hipocrisia cotidiana.
Às vezes tenho a impressão [de] que o
sujeito é enganado por simples conveniência e, talvez, pela comodidade em
permanecer na sonolência motivada pelo ambiente escuro. Neste caso, a luz
incomodaria profundamente os seus olhos atrofiados pela beleza insuficiente das
sombras, à guisa da alegoria do Mito da Caverna de Platão, muito bem poetizada
na canção do Cartel MCs, “nesse mar de concreto, reproduz Ilhas de Capri,
prédios são rochedos, ela canta e exala charme [...]” É o canto da sereia,
bicho!”.
Neste contexto, me preocupo com
determinadas crianças peculiares, ainda na faixa etária de Percy Jackson ou um
pouco mais [adolescentes], que se abraçam fortemente em uma ideia de concreto,
seduzidas pelo templo de olimpo, e singularizam jeitos e gestos e demonizam a
diferença [o outro que não participa e compartilha de suas normas esotéricas].
Com excesso de ironia e deboche, tentam ridicularizar discursos e narrativas
divergentes, às vezes até de modo suave, utilizando-se de seu soft power [ver
Joseph Nyer] para propagar a cicuta que mata e dilacera o estomago de qualquer
indivíduo em pleno gozo de sua consciência crítica, política e cidadã.
A peculiaridade dos seguidores de
Perseu é tamanha que, ao argumentar, jorram discursos cirurgicamente forjados
em uma verdadeira doutrina mani [queísta] do bem e do mal, como se no mundo
existissem apenas dois lados de ideias bicolores, estilizado, inclusive, pela
música “É preciso saber viver”, da Banda Titãs. “Se o bem e o mal existem, você
pode escolher... É preciso saber viver!” Ou seja, pela lógica musical maniqueísta,
a liberdade de expressão do sujeito limita-se a essa polaridade limítrofe do
branco e do preto, do pensamento coxinha e da prática mortadela. E nesse ringue
virtual a briga é para provar quem é o bom e quem é o mau, para além de
Nietzsche.
*Texto publicado inicialmente e
originalmente no Jornal Folha de Boa Vista, com o título
"O caráter maniqueísta do pensamento contemporâneo dos andarilhos raivosos
das ruas de bytes", em: 15 de junho de 2018. Disponível em: http://www.folhabv.com.br/coluna/Opiniao-15-06-2018/6393.
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