Seria
muita pretensão do sujeito propor uma prática análoga à ironia socrática para
justificar seus excessos de asteísmo, prosápia e motejo? O presente
questionamento faz-se necessário, em tese, para fomentar o debate e a reflexão
em torno de um assunto um tanto indigesto, porém, corriqueiro no cotidiano de
alguns indivíduos insultuosos.
Trata-se,
via de regra, de divagar sobre a ironia, a vaidade e o deboche. No meu ponto de
vista essas três variáveis caminham em conjunto, implícita ou explicitamente,
com maior ou menor intensidade de uma e/ou de outra, em diferentes momentos de
alternância. Percebo que curumins e cunhantãs promovem a autoexclusão do debate
controverso, por simples menosprezo ao discurso contrário, sobretudo, por se
acharem autossuficientes e detentores de uma linhagem ideológica suprema e
inquebrável.
Em
razão disso, postam-se, envaidecidamente, com certo grau de ironia perante as
narrativas avessas ao ponto de vista do debochado. Neste contexto, tal atitude
pouco se confunde com a ironia peculiar, característico da dialética socrática.
Ora, Sócrates se deslocava à praça pública, em Atenas, para abordar os cidadãos
atenienses que por ali transitavam, e nessas abordagens buscava-se dialogar com
o outro, de pensamento diferente, utilizando-se de seu método pautado na
ironia.
Porém,
em nenhum momento agia de modo debochado, em nenhum momento agia com
desrespeito perante o discurso ideológico oposto do interlocutor. Pelo
contrário, Sócrates era maduro, ético e sábio, isto é, sabia lidar com as
diferenças [existe esta mística]. Assim sendo, por meio do diálogo, Sócrates
sutilmente levava o sujeito a entrar em contradição com sua própria narrativa e
a partir disso, edificava-se outros pontos de vistas.
Mas,
reitera-se que, esse procedimento era realizado com respeito e parcimônia. Logo, tal comportamento nada tinha a ver com
as inseguranças e eloquências típicas das ironias de Cazuza. Em uma entrevista
ao Correio Braziliense, concedida pelo compositor em 1985, Cazuza proclamou a
seguinte assertiva: “eu acho que tenho
essa ironia, esse deboche sim. É uma autodefesa, porque as pessoas são fogo
mesmo. Então a gente tem que jogar um pouco com o deboche, com o cinismo para
não se machucar [...]”.
Observa-se
no trecho supracitado que Cazuza era [aparentemente] acometido por um grau
elevado de insegurança, em virtude disso, utilizava-se do excesso da ironia e do
deboche para não se machucar, porém, fazia isso de modo agressivo e acabava,
talvez sem querer, agredindo e esbagoando o outro... Era uma autodefesa por
antecipação. Sendo assim, em um contexto de debates intensos, em um cenário composto
por atores complexos, inseguros e autodefensivos, apresento uma atitude
favorável e receptível a essas demandas.
Ou
seja, diante da insegurança e cinismo do outro - que age tentando te
desqualificar ou fragilizar o seu ponto de vista e comprometer o seu equilíbrio
emocional por meio de questionamentos rasos, debochados e retóricos, precisamos
agir com segurança teórica e profissionalismo, mas sem dar vazão as estratégias
errôneas do outro. Em outras palavras, diante de Cazuzas, se comporte como Sócrates...
Diante do Oráculo de Delfos, que tudo sabe, se comporte como se nada soubesse dentro
do Templo de Apolo, conforme o rito sumário: “ipse se nihil scire id unum sciat”.
Longe
de traçar manuais de comportamento ou cartilhas de autoajuda, ensaio apenas
algumas tentativas de lidar com certas atitudes que, às vezes, podem atrapalhar
o trâmite ordeiro daquilo que se propõe. Em uma discussão teórica, por exemplo,
é latente perspectivas ideológicas díspares; os ânimos se exaltam, as pessoas
se contorcem, como coelho angorá em cima de uma mesa [triste analogia], diante
de uma narrativa antagônica ao conjunto de ideias que o insultuoso apreendeu
desde de criancinha.
Esse
incômodo, de certo modo, pode ser hermeticamente interpretado como positivo na ciranda
de debate, pois evidencia-se o estranhamento diante do fato. [...] O simples
fato de o sujeito estar ali, ouvindo o outro lado ou outra expectativa, já pode
ser tomo de salvo-conduto de um avanço epistêmico. Este é o primeiro sinal de
confrontação de seu alter ego e de
agitação da zona de conforto – o incomodo indigesto que abala as estruturas da
prosápia. Este incomodo irrita o indivíduo a ponto de motivá-lo a partir para o
ataque ou contra-ataque. Esta dinâmica é uma excelente oportunidade para desconstruir
verdades e desmistificar ledas idílicas a partir de uma narrativa teórica, por
meio do estranhamento e, consequentemente, da desnaturalização.