A intenção primeira do
piadista [disfarçado de escritor] centrou-se na promoção do riso do outro sobre
a alteridade. No entanto, mais uma vez o comediante mascarado cai no lugar
comum das piadas com alta carga de
preconceito contra as minorias étnicas. Como defesa, o sujeito apropria-se de narrativas fundadas na “aparente”
falta de interpretação de texto e de carência de humor de seus leitores e
comentaristas avulsos para justificar a sua própria falta de humildade em
reconhecer seu total déficit de leitura e, consequentemente, excesso de
ignorância sobre os conceitos básicos de antropologia cultural (deve ter
passado batido por tal disciplina) e admitir o teor infeliz de sua “piada”, que
por sinal está repleta, explícita ou implicitamente, de clichês preconceituosos,
pautados em uma visão idílica, profundamente rasa sobre a diversidade cultural
indígena e sobre o dinamismo cultural de um povo.
Ou seja, é incapaz de
identificar e reconhecer - assim como grande parte de seus seguidores - os
absurdos provocados por seu humor aguçado. Prefere jogar a culpa na
incapacidade do leitor de interpretar seu enigma de esfinge... Tipo:
“decifra-me ou te devoro” (...). Na lógica mítica, algumas narrativas afirmam
que a esfinge se autodevorou, pois, Édipo foi capaz de decifrar o código. Ora,
talvez o sujeito seja apenas um refém dessa ignorância teórica que acomete
grande parte de uma sociedade anti-indigenista composta por curumins e cunhatãs
às avessas ou seria narciso às avessas, que cospe na própria imagem ou no
próprio berço esplendido?
Parafraseando Lao-Tsé, “quem conhece a sua ignorância
revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais
profunda ilusão”. Ora, em várias oportunidades o “comediante” perdeu a chance
de se redimir. Ao invés disso, preferiu sustentar sua carga excessiva de ironia
e exalar ainda mais sarcasmos perante as investidas contrárias. Se por um lado
não tinha a intenção de cabular um povo, por outro, deixou margem para seus
seguidores, isto é, motivou-os direta ou indiretamente a sair do armário e
disseminar ainda mais etnocentrismos em formato de “opinião” ao estilo de ser e
agir dos povos indígenas.
Neste aspecto, cabe aduzir que falta leitura sobre
questões específicas da etnologia indígena para compreender que “índio não
é uma questão de cocar de pena, urucum e arco e flecha, algo de aparente e
evidente nesse sentido estereotipificante, mas sim uma questão de estado de
espírito [...] Um modo de ser e não um modo de aparecer”, conforme
evidencia Eduardo Viveiros de Castro. No mais, fica a esperança embutida na frase de Galileu
Galilei: “nunca encontrei uma pessoa tão ignorante que não pudesse ter
aprendido algo com a sua ignorância”.
**Texto publicado inicialmente na página pessoal do facebook do autor, em 25 de outubro de 2016.