Há 14 anos
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Carência
A carência, às vezes, te leva a arquitetar, mesmo sem querer, um rastro histórico de relacionamento pessoal imensurável, dos mais variados tipos e espécies. Mesmo que inconscientemente, o indivíduo entranha-se em uma rede social interpessoal asquerosa, com isso sofre e faz sofrer de modo impactante diferentes faces da vida cotidiana, motivada por um nível de carência e vaidade muito acima da média padrão. Quando se percebe, já está se afogando em um poço, cuja profundidade não se tem registro. Diante do paredão de acusações e julgamentos, a estratégia é sempre a mesma: com elevada volumetria de cinismo circense de baixa qualidade artística, apresenta-se como a vítima e joga a chama de vilão no capim seco de mais um alvo. Nessa ânsia por uma moldura que ilustre e sustente a aparência almejada, vocifera-se amor com a mesma intensidade e frequência com que boceja na boca da noite, na sonolência da solidão. Mas, quando esse amor pelo anjo caído não decola ou não vislumbra ares de reciprocidade, descarta-se e ignora-se com tamanha facilidade, igual se desfaz do lixo doméstico no resplandecer de cada transição do céu azul do dia a dia. O céu parece movimentar-se, mas são as nuvens turvas que se redesenham a cada piscadela do olhar. É como o camaleão do lavrado ou a metamorfose ambulante de Raul Seixas. Porém, a mutação da personagem em tela não segue um fluxo espontâneo. É tudo muito bem pensado e arquitetado com foco para o futuro. Os erros e as cicatrizes do passado são simplesmente ignoradas, como marca típica e característica de um ser endiabrado, que necessita ser assumido pelo outro, sob qualquer pretexto, pois a carência e o vazio não dão margens para a espera e a paciência não combina com a vaidade e a vontade de expor um pouco o lugar fixo, um firmamento que ilustre para a sociedade a sua capacidade intrínseca de estar bem e viver bem, como o exemplo máximo do sucesso, mesmo que inventado na artificialidade do real.
domingo, 4 de agosto de 2019
Metade
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço
Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é platéia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é platéia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também
[Oswaldo Montenegro]
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
Nó
Amor, sofrimento, medo e covardia. São quatro palavras que atualmente eu não consigo curtir muito. As três últimas por motivos óbvios. O termo "amor" poderia ser primoroso e esplendoroso... Mas, ele [por si só] não se sustenta isoladamente. Existe aí a necessidade de complementos incômodos que acarretam tristeza espiritual que atinge a espinha dorsal do indivíduo. O amor pressupõe sofrência, e esta impõe o medo e, consequentemente, a covardia. Quase todo mundo, via de regra, quer amar, sentir aquele frio na barriga e aquela sensação indescritível de paz interior. Porém, nos últimos tempos de cólera subjacente a essa relação típica da dita modernidade líquida, amar torna-se, invariavelmente, dor de cabeça crônica. Primeiro, pois o ser humano se tornou uma caixinha de surpresa, com um passado histórico assombroso, isto é, assombrado por nuvens turvas mal explicadas. Segundo que somos educados no cercado do patriarcado e, infelizmente, o machismo impera em muitas relações dicotômicas. Em razão disso, etnocentricamente e sem efeito de justificativa, compreender ponto sem nó ou com nó cego é uma tarefa enfadonha na vida de qualquer humanóide. Tudo bem que o exercício da desconstrução é de fundamental importância, mas não funciona assim da noite para o dia. E chegar a essa conclusão é foda de dolorido. Essa forma de se posicionar torna essa reflexão uma merda. Mas... Esse "mas" também complica tudo. Enfim, em vez do famoso frio na barriga, o amor pode tornar sua vida um nicho de paranóias e vacilos infindáveis que mutilam a sua sanidade mental e provoca o flagelo do outro. Ele pode transformar você, um simples cidadão instigado, em uma esfinge que além de devorar o outro, se autodevora devido a falta de sensibilidade hermética de compreender que o passado de qualquer um configura-se em vivências efetuadas por pessoas aparentemente livres que vivem uma vida sem muito zelo moral pelo futuro. Daí, uma hora a conta chega em forma de confronto, contradição, mentira, constrangimento e vergonha. Vergonha do outro ou do passado sem zelo? E eu achava que era amor e era tudo isso: sofrimento, medo e covardia. Afinal, como bem lembrou Bukowski: "o amor é um cão dos diabos".
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