segunda-feira, 8 de junho de 2020

Obscurantismo

Até entendo os motivos que levam o chefe máximo dessa bagunça a optar pelo obscurantismo em sua gestão... A equipe quase toda flerta cotidianamente com as auréolas dos anos de chumbo. Agora, de modo retórico, ainda não consigo compreender o posicionamento do cidadão que apoia tudo isso. Que tipo de gente acha normal e até aplaude a atitude nada republicana do líder do pasto do lado de lá, de tentar, ao máximo e sem limites, censurar e restringir o acesso a informação, até então de caráter público? Qual o objetivo de tornar sigiloso determinados dados que sempre estiveram a disposição da sociedade? A política do sigilo e da censura não deve ser a regra. A restrição de acesso deve ser a exceção em um país, em tese, republicano, que tem a obrigação legal e moral de fomentar a aplicação efetiva de accountability, sempre com foco na tansparência das práticas governamentais e, consequentemente, da participação social. Se o cara não sabe, os órgãos atinentes, em vez de se calarem, podem ensinar didaticamente a necessidade de se prestar contas.

sábado, 30 de maio de 2020

Opressão

É corriqueiro ouvir de membros de grupos simpatizantes dos ideais da supremacia branca, opressores em essência, a lamúria de que se sentem oprimidos por aqueles que apresentam uma narrativa em favor  das populações vulneráveis:"- Ain é por isso que o pessoal aqui não participa da discussão, pois todo mundo se sente coagido pelas falas de vocês. Inclusive diversas pessoas tem medo de expressar sua opinião por medo de represália" (geralmente a opinião é a mais pura exalação de preconceito em suas diferentes formas). Ora, é evidente que, diante de um debate, pessoas com o mínimo de leitura crítica, irão se manifestar de modo incisivo e categórico frente as manifestações equivocadas e severamente destoante daquilo que se defende e que se prega. Falas racistas, por exemplo, devem ser combatidas com afinco, até mesmo para machucar a ferida mal curada, de modo que a cicatriz ocorra livre dos germes raivosos do preconceito. Desse modo, colocar o dedo na ferida dói, é claro que vai doer. Mas a pancada da civilidade deve ser proferida, para que o supremacista ignorante perceba, da pior forma, que não existe zona de conforto discursivo para quem flerta com a banalidade do mal.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Revolução

Eu tempos de cólera, de desrespeito e de descrédito a figura rebelde contrária ao status quo, a minha rebeldia é amar. Amar é a revolução que eu venero... A revolução feita com punho de ferro e jorrada de afeto de chumbo terapêutico. É uma revolta armada por meio de palavras de carinho e afetividade prática, a partir da emissão de ruidos suaves e batidas de liquidificador. Em letras graúdas eu grito: sou humano e a minha atitude reflete a expressão máxima de humanidade diante da labuta indigesta à beira do fogo do deboche.  Sou eu diante do gosto amargo de olhares límpidos em meio a exceção apaziguada, ilustrada no outdoor contemporâneo da vida, em vista mostrar ao mundo a essência e não a volatilidade do ser e das relações. As relações são frágeis e o humano é feito de porcelana quase descartável, mas resiliente ao olhar julgador que tentar punir as aleivosias incipientes e  repentinas da vida. Como um estalo ou na velocidade de um piscar de olhos, a gente ama e subtrai o sumo necessário ao bem estar emocional de intensidade similar a força de uma ventania inesperada. Mas não sou eu e muito menos você que está credenciado a árbitrar esse jogo complexo chamado vida. Esquece o VAR. Deixa o lance rolar. Ei maluco se é bom, deixa rolar!

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Burocrata

Desde criancinha, sempre ouvia alguém "entendido" proferir a seguinte máxima: "mais do que uma época de crises, enfrentamos hoje uma crise de época, na qual a educação tem papel fundamental a desempenhar". 

Mas, às vezes sou levando a compreendê-la apenas como instrumento de efeito de uma retórica exemplar, pois na prática os cafajestes do poder me ensinaram a denega-la como o bandido que nega a autoria de um crime. O mal generalizou... Banalizou-se o mal! 

Aí eu te questiono: em que sentido o conceito de banalidade do mal, cunhado por Hannah Arendt, se relaciona com o vazio do pensamento burocrático [típico] dos tempos atuais?  

As ações humanas estão automatizadas. O sujeito cumpre ordens por pura e simples movimentação habitual, se acostumou a fazer sem raciocinar, sem perceber as dores humanas e sem ouvir os gritos silenciados. É o típico burocrata desenhado por Arendt em sua obra "Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal", o livro do século XX e do século XXI. 

Em sua análise sobre um evento específico pós segunda guerra mundial, Hannah Arendt aferiu que um dos vilões da política nazista analisado não estava acometido de nenhuma doença mental e disfunção de caráter. Muito pelo contrário, Eichmann agia em conformidade com aquilo que acreditava ser o seu dever. Ele apenas era "eficiente" no seu ofício, na sua função e no compromisso com a execução das ordens superiores que recebia. 

A contra gosto de seus admiradores, que desejavam acusar Eichmann de antissemita, Arendt concluiu que o cara não era antissemita, era apenas um burocrata. Ironicamente, para a estudiosa alemã, um burocrata era muito mais repugnante do que o antissemitismo. 

Para Arendt, o burocrata era movido pelo anseio carnívoro de crescer profissionalmente e para isso, cumpria ordens sem questionar um pingo do "i", de modo orgânico percebia processos, máquinas, resultados, nunca enxergava pessoas. No fundo não raciocinava, não conseguia refletir sobre o mal que as suas ações poderiam causar nas pessoas, ele não via pessoas, só queria agradar o seu superior: Adolf Hitler, os outros são os outros. 

Em consonância com uma discussão iniciada no twitter, quatos burocratas você conhece em sua vida? Cuidado!

terça-feira, 21 de abril de 2020

Cancelado

Eu reconheço e confesso que em alguns momentos fui extremamente injusto ao me referir a alguns segmentos de modo seletivo e pejorativo, tipo "as feministas de vitrine de luxo" para denotar a incoerência entre a teoria e a prática desse movimento. E quem sou eu pra isso né?!  Faltou bom senso de minha parte. Eu pratiquei um desserviço ao dar coro ao eco enviesado de raciocínio limitado e contrário, que peca pelo excesso de expectativa que se impõe a dado espectro ideológico. Mas a partir disso eu conclui que, por exemplo, a minha incoerência diária ou esporádica não anula o meu caráter humanista e a minha vontade por justiça social e demais anseios tipicamente progressistas. Não podemos ser cancelados por sermos humanos, logo, imperfeitos. A luta deve continuar sempre, sobretudo, fundado nesse processo constante de desconstrução e ruptura. Para não ficar em um único exemplo, o machismo existe e está enraizado em nossa alma. Em alguns seres de modo mais lantente e em outros de maneira mais velada. Isso é fato. E o indivíduo não vai conseguir extrair toda essa áurea maligna, advinda da educação que recebeu ao longo dos anos, apenas com leituras e análises críticas sobre temas teóricos atinentes ao feminismo e as relações típicas do patriarcado. Entendo que, em consonância a isso, é necessário a convivência massiva com mulheres empoderadas para perceber [da melhor forma] o machismo que nos acompanha e que persiste de modo sistêmico e estrutural em nosso meio. É preciso aprender na prática e no dia a dia, por meio do exercício da autoconsciência.

sábado, 18 de abril de 2020

Vida

Uma vez um certo alguém, acometido por alto nível de indignação contra o intenso fluxo migratório venezuelano no Estado de Roraima, comparou o Estado a sua casa para justificar a necessidade de controle na fronteira...

"- Na sua casa você deixaria 'qualquer um' adentrar livremente sem conhecer ou averiguar quesitos mínimos? O Estado é como a nossa casa, o nosso lugar sagrado, não pode entrar qualquer um assim na hora que bem entender".

Na época eu discordei da analogia desproporcional, por motivos óbvios. No entanto, agora eu me utilizo do mesmo artifício para levar o habitante do pasto do lado de lá a refletir sobre essa tara pela economia em detrimento a vida.

Imagina:

O gestor da sua casa, ao se deparar com um filho querido acometido por uma doença grave, pensaria duas vezes, sobretudo no bem estar da enconomia familiar para decidir sobre o custo saúde daquele ente? Ou ele seria capaz de lançar mão de todos os recursos para salvar a vida? "- Não! Eu não vou sacrificar a saúde econômica doméstica por causa de uma simples vida. Precisamos pensar na economia. Afinal, podemos gerar uma vida em 9 meses, mas a economia leva-se mais tempo?