A carência, às vezes, te leva a arquitetar, mesmo sem querer, um rastro histórico de relacionamento pessoal imensurável, dos mais variados tipos e espécies. Mesmo que inconscientemente, o indivíduo entranha-se em uma rede social interpessoal asquerosa, com isso sofre e faz sofrer de modo impactante diferentes faces da vida cotidiana, motivada por um nível de carência e vaidade muito acima da média padrão. Quando se percebe, já está se afogando em um poço, cuja profundidade não se tem registro. Diante do paredão de acusações e julgamentos, a estratégia é sempre a mesma: com elevada volumetria de cinismo circense de baixa qualidade artística, apresenta-se como a vítima e joga a chama de vilão no capim seco de mais um alvo. Nessa ânsia por uma moldura que ilustre e sustente a aparência almejada, vocifera-se amor com a mesma intensidade e frequência com que boceja na boca da noite, na sonolência da solidão. Mas, quando esse amor pelo anjo caído não decola ou não vislumbra ares de reciprocidade, descarta-se e ignora-se com tamanha facilidade, igual se desfaz do lixo doméstico no resplandecer de cada transição do céu azul do dia a dia. O céu parece movimentar-se, mas são as nuvens turvas que se redesenham a cada piscadela do olhar. É como o camaleão do lavrado ou a metamorfose ambulante de Raul Seixas. Porém, a mutação da personagem em tela não segue um fluxo espontâneo. É tudo muito bem pensado e arquitetado com foco para o futuro. Os erros e as cicatrizes do passado são simplesmente ignoradas, como marca típica e característica de um ser endiabrado, que necessita ser assumido pelo outro, sob qualquer pretexto, pois a carência e o vazio não dão margens para a espera e a paciência não combina com a vaidade e a vontade de expor um pouco o lugar fixo, um firmamento que ilustre para a sociedade a sua capacidade intrínseca de estar bem e viver bem, como o exemplo máximo do sucesso, mesmo que inventado na artificialidade do real.
Há 14 anos
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