quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Etnocentrismo**

A intenção primeira do piadista [disfarçado de escritor] centrou-se na promoção do riso do outro sobre a alteridade. No entanto, mais uma vez o comediante mascarado cai no lugar comum das piadas com alta carga de preconceito contra as minorias étnicas. Como defesa, o sujeito apropria-se de narrativas fundadas na “aparente” falta de interpretação de texto e de carência de humor de seus leitores e comentaristas avulsos para justificar a sua própria falta de humildade em reconhecer seu total déficit de leitura e, consequentemente, excesso de ignorância sobre os conceitos básicos de antropologia cultural (deve ter passado batido por tal disciplina) e admitir o teor infeliz de sua “piada”, que por sinal está repleta, explícita ou implicitamente, de clichês preconceituosos, pautados em uma visão idílica, profundamente rasa sobre a diversidade cultural indígena e sobre o dinamismo cultural de um povo. 

Ou seja, é incapaz de identificar e reconhecer - assim como grande parte de seus seguidores - os absurdos provocados por seu humor aguçado. Prefere jogar a culpa na incapacidade do leitor de interpretar seu enigma de esfinge... Tipo: “decifra-me ou te devoro” (...). Na lógica mítica, algumas narrativas afirmam que a esfinge se autodevorou, pois, Édipo foi capaz de decifrar o código. Ora, talvez o sujeito seja apenas um refém dessa ignorância teórica que acomete grande parte de uma sociedade anti-indigenista composta por curumins e cunhatãs às avessas ou seria narciso às avessas, que cospe na própria imagem ou no próprio berço esplendido? 

Parafraseando Lao-Tsé, “quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão”. Ora, em várias oportunidades o “comediante” perdeu a chance de se redimir. Ao invés disso, preferiu sustentar sua carga excessiva de ironia e exalar ainda mais sarcasmos perante as investidas contrárias. Se por um lado não tinha a intenção de cabular um povo, por outro, deixou margem para seus seguidores, isto é, motivou-os direta ou indiretamente a sair do armário e disseminar ainda mais etnocentrismos em formato de “opinião” ao estilo de ser e agir dos povos indígenas. 

Neste aspecto, cabe aduzir que falta leitura sobre questões específicas da etnologia indígena para compreender que “índio não é uma questão de cocar de pena, urucum e arco e flecha, algo de aparente e evidente nesse sentido estereotipificante, mas sim uma questão de estado de espírito [...] Um modo de ser e não um modo de aparecer”, conforme evidencia Eduardo Viveiros de Castro. No mais, fica a esperança embutida na frase de Galileu Galilei: “nunca encontrei uma pessoa tão ignorante que não pudesse ter aprendido algo com a sua ignorância”.

**Texto publicado inicialmente na página pessoal do facebook do autor, em 25 de outubro de 2016. 

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