Quando eu olho, eu
percebo tudo, mas não consigo ver absolutamente nada. Quando eu estou próximo,
eu vivo tudo, mas não consigo reviver quase nada. Quando eu converso, eu
consigo ouvir tudo, todavia, não consigo falar nada. O tempo todo quero ter,
ver, sentir, ir, verbo a noite toda. A noite toda que poderia ter sido, mas não
foi. Ou, como diz Manuel Bandeira, “a vida inteira que podia ter sido e
que não foi”. Quando penso em tentar, desisto, e se desisto, logo penso em
tentar. Fico nesse vai-e-vem, no chove e não molha de uma poesia macabra de
Heine, estilo “à primeira vista” de Chico Cesar: “quando não tinha nada, eu
quis, quando tudo era ausência, esperei.
Ah! Alguns compositores e escritores conseguem musicalizar os sentidos. É como Alberto Caeiro,
heterônimo de Fernando Pessoa, proclamava a frase esplêndida que ilustra o
título do meu blog: “Eu não tenho
filosofia: tenho sentidos” [...] “Se falo na Natureza não é porque saiba o que
ela é, mas porque a amo, e amo-a por isso, porque quem ama nunca sabe o
que ama, nem sabe por que ama, nem o que é amar [...] Amar é a eterna
inocência, e a única inocência não pensar”.
Por
isso eu penso, reflito, imagino, na intimidade de meus pensamentos,
invioláveis, secretos, meus e somente meus. Mas, se os guardo comigo, nas
profundezas do espírito do ser, não me servem de nada, uma vez que são inúteis,
assim como os meus sentidos são inúteis se o meu coração é frio, pois não passa
de pura fantasia de um pequeno polegar, recomendado por Charles Perrault,
idealizador do gênero literário denominado “conto de fadas”. Enfim, em minha
idade, recuso-me a seguir preceitos de conduta estigmatizantes de contos
infantis. Não vivo na França do século XVII, não curto Cendrillon ou la petite pantoufle de verre, La Belle au bois dormant, muito menos Le Petit Chaperon rouge. Prefiro acreditar que não tenho vocação
para idealizações de sentimentos surreais – ISS.
A
máxima descartiana “penso, logo existo” não ilustra muito bem minha atual fase,
haja vista que não encaro a razão humana como a única forma de existência. No
entanto, também não faço idealizações per
si. A práxis emocional é minha
atual vibe, isto é, a confabulação
emocional existe, mas não infinitizo-a ad
aeternum no campo das idealizações dos contos de fadas. Pelo contrário,
tenho tentado exporta-la ao palco concreto, da prática do cotidiano possível,
tornando-a real. O grande desafio é exatamente esse, importar uma ideia da arena
da abstração para o campo concreto, uma vez que estamos lidando com sentidos
[emoções humanas] e não com filosofias [razões humanas]. Poxa! Mas, eu quero
falar, quero que o escopo saiba das minhas inquietações, quero dizer.
Veja
bem, Nelson Rodrigues já condecorava, “o que não se diz apodrece em nós”. Então
diga! “Deixa que digam, que pensem, que falem, deixa isso prá lá, vem pra cá, o
que é que tem? E eu não tô fazendo nada, nem você também. Faz mal bater um papo
assim gostoso com alguém?” Tudo bem, qualquer ano conversarei com o meu
silêncio, se ele me ouvir eu calarei. Eu sou assim... às vezes faço e,
dependendo da reação, recuo. Covardia? Sabe aquela ação motivada pela
empolgação imediata? Não sei se cabe culpar a espontaneidade. Mas, às vezes sou
assim, meio de supetão. Às vezes sou ferro moldado pelo fogo, como uma espada
de samurai, estilo katana masamune: lendária, forte, leve e letal. Às vezes sou
o próprio fogo que molda a katana em temperatura máxima no tatara de barro,
próximo ao ardor do amor, esse que arde sem se ver, como defendido por Luís de
Camões. Contradição? “Atroz contradição
a da cólera; nasce do amor e mata o amor” [Simone de Beauvoir].
É a vida meu caro, é a vida.
👏👏👌
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