quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Defensiva

Seria muita pretensão do sujeito propor uma prática análoga à ironia socrática para justificar seus excessos de asteísmo, prosápia e motejo? O presente questionamento faz-se necessário, em tese, para fomentar o debate e a reflexão em torno de um assunto um tanto indigesto, porém, corriqueiro no cotidiano de alguns indivíduos insultuosos.

Trata-se, via de regra, de divagar sobre a ironia, a vaidade e o deboche. No meu ponto de vista essas três variáveis caminham em conjunto, implícita ou explicitamente, com maior ou menor intensidade de uma e/ou de outra, em diferentes momentos de alternância. Percebo que curumins e cunhantãs promovem a autoexclusão do debate controverso, por simples menosprezo ao discurso contrário, sobretudo, por se acharem autossuficientes e detentores de uma linhagem ideológica suprema e inquebrável.

Em razão disso, postam-se, envaidecidamente, com certo grau de ironia perante as narrativas avessas ao ponto de vista do debochado. Neste contexto, tal atitude pouco se confunde com a ironia peculiar, característico da dialética socrática. Ora, Sócrates se deslocava à praça pública, em Atenas, para abordar os cidadãos atenienses que por ali transitavam, e nessas abordagens buscava-se dialogar com o outro, de pensamento diferente, utilizando-se de seu método pautado na ironia.

Porém, em nenhum momento agia de modo debochado, em nenhum momento agia com desrespeito perante o discurso ideológico oposto do interlocutor. Pelo contrário, Sócrates era maduro, ético e sábio, isto é, sabia lidar com as diferenças [existe esta mística]. Assim sendo, por meio do diálogo, Sócrates sutilmente levava o sujeito a entrar em contradição com sua própria narrativa e a partir disso, edificava-se outros pontos de vistas.

Mas, reitera-se que, esse procedimento era realizado com respeito e parcimônia.  Logo, tal comportamento nada tinha a ver com as inseguranças e eloquências típicas das ironias de Cazuza. Em uma entrevista ao Correio Braziliense, concedida pelo compositor em 1985, Cazuza proclamou a seguinte assertiva: “eu acho que tenho essa ironia, esse deboche sim. É uma autodefesa, porque as pessoas são fogo mesmo. Então a gente tem que jogar um pouco com o deboche, com o cinismo para não se machucar [...]”.

Observa-se no trecho supracitado que Cazuza era [aparentemente] acometido por um grau elevado de insegurança, em virtude disso, utilizava-se do excesso da ironia e do deboche para não se machucar, porém, fazia isso de modo agressivo e acabava, talvez sem querer, agredindo e esbagoando o outro... Era uma autodefesa por antecipação. Sendo assim, em um contexto de debates intensos, em um cenário composto por atores complexos, inseguros e autodefensivos, apresento uma atitude favorável e receptível a essas demandas.

Ou seja, diante da insegurança e cinismo do outro - que age tentando te desqualificar ou fragilizar o seu ponto de vista e comprometer o seu equilíbrio emocional por meio de questionamentos rasos, debochados e retóricos, precisamos agir com segurança teórica e profissionalismo, mas sem dar vazão as estratégias errôneas do outro. Em outras palavras, diante de Cazuzas, se comporte como Sócrates... Diante do Oráculo de Delfos, que tudo sabe, se comporte como se nada soubesse dentro do Templo de Apolo, conforme o rito sumário: “ipse se nihil scire id unum sciat”.

Longe de traçar manuais de comportamento ou cartilhas de autoajuda, ensaio apenas algumas tentativas de lidar com certas atitudes que, às vezes, podem atrapalhar o trâmite ordeiro daquilo que se propõe. Em uma discussão teórica, por exemplo, é latente perspectivas ideológicas díspares; os ânimos se exaltam, as pessoas se contorcem, como coelho angorá em cima de uma mesa [triste analogia], diante de uma narrativa antagônica ao conjunto de ideias que o insultuoso apreendeu desde de criancinha.

Esse incômodo, de certo modo, pode ser hermeticamente interpretado como positivo na ciranda de debate, pois evidencia-se o estranhamento diante do fato. [...] O simples fato de o sujeito estar ali, ouvindo o outro lado ou outra expectativa, já pode ser tomo de salvo-conduto de um avanço epistêmico. Este é o primeiro sinal de confrontação de seu alter ego e de agitação da zona de conforto – o incomodo indigesto que abala as estruturas da prosápia. Este incomodo irrita o indivíduo a ponto de motivá-lo a partir para o ataque ou contra-ataque. Esta dinâmica é uma excelente oportunidade para desconstruir verdades e desmistificar ledas idílicas a partir de uma narrativa teórica, por meio do estranhamento e, consequentemente, da desnaturalização.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Caro leitor, seja educado em seu comentário. O Editor do Blog Amajouva reserva-se o direito de não publicar comentários de conteúdo difamatório e ofensivo. Todas as informações aqui veiculadas são de responsabilidade deste blog e expressam a opinião exclusiva e particular do autor.