sexta-feira, 8 de junho de 2018

Odisseia*

Com dezessete anos, Montez Maduro, vulgo Montezinho, desceu a ladeira da vida e seguiu rumo ao pulmão do mundo para respirar novos ares, desbravar terras inóspitas e interagir com culturas alheias, na esperança de dias melhores, pra sempre. Sem olhar para trás, ignorou sua velha infância e tudo aquilo que um dia jurou presença eterna: sua mãe, Dona Francisca, seus irmãos gêmeos mais novos, Hugo e Chávez, seu cachorro, Argos e seus amigos do bairro de Agapito.

Montezinho partiu para uma verdadeira odisseia, sem lenço e sem documento, em um dia ensolarado de agosto. A temperatura estava muito alta, algo anormal para aquele período. Montezinho acordou cedo devido ao calor exagerado. Estava ensopado, transpirando água salgada de produção corporal própria. Morava em uma cabana quadrada, medindo quatro por quatro, de madeira velha, coberta por chapas de alumínio.

Levantou-se meio atordoado, olhou para o nada, pela única janela improvisada que havia no barraco. Depois desviou o olhar para o terreiro e avistou os seus irmãos engatinhando na terra seca e quente. Nesse momento, em um mix de angústia e desespero, não titubeou ao concluir que a fuga era a única alternativa plausível para um futuro, mesmo que incerto, pois permanecer naquele contexto de miserabilidade era sinônimo de fome e, principalmente, de vida curta.

Quando a dona Francisca chegou em casa, Montezinho já havia fugido. Diante de sua ausência, ela não chorou, não gritou, muito menos se desesperou. Na verdade, seu espírito materno desejava há muito tempo a fuga de seu primogênito, haja vista que essa evasão anunciada significaria um grito de esperança e de retorno para as gerações mais novas em um futuro não tão distante. Contudo, ao contar sobre os fatos recentes para a sua vizinha, dona MarisabelColmenares, ouviu como resposta um discurso estarrecedor e cruel.

Dona Colmenares afirmou categoricamente que Montezinho havia feito uma péssima escolha e por isso iria sofrer muito na nova morada, uma vez que o povo de lá era agressivo com gente de fora. Porém, Dona Francisca manteve-se otimista ao contra argumentar sua amiga.

– O corpo de Cristo deve aceitar os estrangeiros com braços abertos e tratá-los como iguais! Como um verdadeiro povo cristão, tenho fé que eles receberão de braços abertos meu filho amado, em nome do Senhor Jesus. Meu filho conseguirá um bom emprego e retornará para ajudar seus irmãos.

Há cem quilômetros de distância do ponto original, Montezinho seguia a pé, em baixo de um sol escaldante, à beira da principal rodovia que ligava um país ao outro. Ele pretendia seguir viagem caminhando a passos curtos, estava trabalhando o seu psicológico para isso, pois a essa altura, conseguiu perceber que, por sua condição de estrangeiro, não conseguiria carona nem com reza braba. Assim sendo, o andarilho logo encontrou companhia ao longo de sua jornada. Foi a partir dessa interação com os seus iguais que Montezinho conseguiu um gole de água e o mínimo de alimento necessário para prosseguir na diáspora.

Após cinquenta e quatro horas de caminhada, Montezinho chegou à capital de São Sebastião, reconhecida por amplas devoções e hipocrisias ínfimas. Ao reunir-se aos demais imigrantes na praça pública Simón Bolívar, sentiu o aroma dos ninguéns espalhados, famintos como os bichos enclausurados, com sonhos perdidos e a dignidade em flagelos. A sua ganância de uma vida farta havia se desmanchado no ar. Ele só queria um prato de comida, mas o marmitex estava sendo distribuído no outro lado da avenida circular de mão dupla.

Montezinho respirou fundo, buscou sua última força para conseguir atravessar poucos metros que mais pareciam quilômetros. Sua alma flutuou, ouve-se um urro de misericórdia, o automóvel parou como a batida de seu coração. Montezinho foi enterrado nu, como indigente em caixão aberto feito de compensado, na última quadra, no fim do outeiro do cemitério dos imigrantes.

*Texto publicado inicialmente e originalmente no Jornal Folha de Boa Vista, com o título "A odisseia de Montez", em: 08 de junho de 2018. Disponível em: http://www.folhabv.com.br/coluna/Opiniao-08-06-2018/6348.

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