quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Despossuídos


Parado no sinal, na biqueira de casa
O trânsito transborda, é congestionamento no trecho do mar
Estou com pressa, mas não posso voar
Estou estressado, mas não posso matar
A lei é severa, se faz presente em ato repressivo
O Estado mete a mão abstrata no bolso do depressivo
A manada silencia, paga a multa mimosamente
Como zumbis nas estradas esburacadas da história
Os vigaristas e os devotos sonegam massivamente
Criticam o sistema pela falta de lógica preventiva
Mas estão todos amenos e brandos, montados na canabis ativa
Por muito menos a multidão foi pra rua
Manipulados pelos meninos, na esquina do teatro da paulista
As nossas custas, patrocinaram o coice
Insatisfeitos com o privilégio dos pobres
Gritaram asneiras patrióticas em nome da exclusividade dos nobres
Os nobres da zona sul, da corte e da burguesia
Os pobres da marginal, do gueto da prelazia
O zé ninguém, membro da trupe dos contingentes de despossuídos:
O idoso, o negro, o imigrante sem dignidade, refugiado em sua própria agonia
O humano desapropriado de qualquer humanidade
Que procura comida na lixeira, como um animal irracional
O racional atiça o animal de sua propriedade: a lixeira com o seu lixo
O lixo tem dono, o animal sem pedigree não tem natal
Se fosse um vira lata, pelo menos, seria objeto de moção
Mais do que isso, seria digno de um pedaço de pão
Mas, como é apenas um despossuído, ignora-se o tal
O humano tem mais o que fazer: se estressar com o pardal.

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