Parado no sinal, na biqueira de
casa
O trânsito transborda, é
congestionamento no trecho do mar
Estou com pressa, mas não posso voar
Estou estressado, mas não posso
matar
A lei é severa, se faz presente em
ato repressivo
O Estado mete a mão abstrata no
bolso do depressivo
A manada silencia, paga a multa
mimosamente
Como zumbis nas estradas
esburacadas da história
Os vigaristas e os devotos sonegam massivamente
Criticam o sistema pela falta de
lógica preventiva
Mas estão todos amenos e brandos,
montados na canabis ativa
Por muito menos a multidão foi pra
rua
Manipulados pelos meninos, na
esquina do teatro da paulista
As nossas custas, patrocinaram o coice
Insatisfeitos com o privilégio dos
pobres
Gritaram asneiras patrióticas em nome
da exclusividade dos nobres
Os nobres da zona sul, da corte e
da burguesia
Os pobres da marginal, do gueto da
prelazia
O zé ninguém, membro da trupe dos
contingentes de despossuídos:
O idoso, o negro, o imigrante sem
dignidade, refugiado em sua própria agonia
O humano desapropriado de qualquer
humanidade
Que procura comida na lixeira, como
um animal irracional
O racional atiça o animal de sua
propriedade: a lixeira com o seu lixo
O lixo tem dono, o animal sem
pedigree não tem natal
Se fosse um vira lata, pelo menos,
seria objeto de moção
Mais do que isso, seria digno de um
pedaço de pão
Mas, como é apenas um despossuído, ignora-se
o tal
O humano tem mais o que fazer: se
estressar com o pardal.
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