sábado, 18 de abril de 2020

Vida

Uma vez um certo alguém, acometido por alto nível de indignação contra o intenso fluxo migratório venezuelano no Estado de Roraima, comparou o Estado a sua casa para justificar a necessidade de controle na fronteira...

"- Na sua casa você deixaria 'qualquer um' adentrar livremente sem conhecer ou averiguar quesitos mínimos? O Estado é como a nossa casa, o nosso lugar sagrado, não pode entrar qualquer um assim na hora que bem entender".

Na época eu discordei da analogia desproporcional, por motivos óbvios. No entanto, agora eu me utilizo do mesmo artifício para levar o habitante do pasto do lado de lá a refletir sobre essa tara pela economia em detrimento a vida.

Imagina:

O gestor da sua casa, ao se deparar com um filho querido acometido por uma doença grave, pensaria duas vezes, sobretudo no bem estar da enconomia familiar para decidir sobre o custo saúde daquele ente? Ou ele seria capaz de lançar mão de todos os recursos para salvar a vida? "- Não! Eu não vou sacrificar a saúde econômica doméstica por causa de uma simples vida. Precisamos pensar na economia. Afinal, podemos gerar uma vida em 9 meses, mas a economia leva-se mais tempo?

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Adeus

Vou excluir esse blog. Adeus!

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Carência

A carência, às vezes, te leva a arquitetar, mesmo sem querer, um rastro histórico de relacionamento pessoal imensurável, dos mais variados tipos e espécies. Mesmo que inconscientemente, o indivíduo entranha-se em uma rede social interpessoal asquerosa, com isso sofre e faz sofrer de modo impactante diferentes faces da vida cotidiana, motivada por um nível de carência e vaidade muito acima da média padrão. Quando se percebe, já está se afogando em um poço, cuja profundidade não se tem registro. Diante do paredão de acusações e julgamentos, a estratégia é sempre a mesma: com elevada volumetria de cinismo circense de baixa qualidade artística, apresenta-se como a vítima e joga a chama de vilão no capim seco de mais um alvo. Nessa ânsia por uma moldura que ilustre e sustente a aparência almejada, vocifera-se amor com a mesma intensidade e frequência  com que boceja na boca da noite, na sonolência da solidão. Mas, quando esse amor pelo anjo caído não decola ou não vislumbra ares de reciprocidade, descarta-se e ignora-se com tamanha facilidade, igual se desfaz do lixo doméstico no resplandecer de cada transição do céu azul do dia a dia. O céu parece movimentar-se, mas são as nuvens turvas que se redesenham a cada piscadela do olhar. É como o camaleão do lavrado ou a metamorfose ambulante de Raul Seixas. Porém, a mutação da personagem em tela não segue um fluxo espontâneo. É tudo muito bem pensado e arquitetado com foco para o futuro. Os erros e as cicatrizes do passado são simplesmente ignoradas, como marca típica e característica de um ser endiabrado, que necessita ser assumido pelo outro, sob qualquer pretexto, pois a carência e o vazio não dão margens para a espera e a paciência não combina com a vaidade e a vontade de expor um pouco o lugar fixo, um firmamento que ilustre para a sociedade a sua capacidade intrínseca de estar bem e viver bem, como o exemplo máximo do sucesso, mesmo que inventado na artificialidade do real.

domingo, 4 de agosto de 2019

Metade

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço
Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é platéia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também
[Oswaldo Montenegro]

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Amor, sofrimento, medo e covardia. São quatro palavras que atualmente eu não consigo curtir muito. As três últimas por motivos óbvios. O termo "amor" poderia ser primoroso e esplendoroso... Mas, ele [por si só] não se sustenta isoladamente. Existe aí a necessidade de complementos incômodos que acarretam tristeza espiritual que atinge a espinha dorsal do indivíduo. O amor pressupõe sofrência, e esta impõe o medo e, consequentemente, a covardia. Quase todo mundo, via de regra, quer amar, sentir aquele frio na barriga e aquela sensação indescritível de paz interior. Porém, nos últimos tempos de cólera subjacente a essa relação típica da dita modernidade líquida, amar torna-se, invariavelmente, dor de cabeça crônica. Primeiro, pois o ser humano se tornou uma caixinha de surpresa, com um passado histórico assombroso, isto é, assombrado por nuvens turvas mal explicadas. Segundo que somos educados no cercado do patriarcado e, infelizmente, o machismo impera em muitas relações dicotômicas. Em razão disso, etnocentricamente e sem efeito de justificativa, compreender ponto sem nó ou com nó cego é uma tarefa enfadonha na vida de qualquer humanóide. Tudo bem que o exercício da desconstrução é de fundamental importância, mas não funciona assim da noite para o dia. E chegar a essa conclusão é foda de dolorido. Essa forma de se posicionar torna essa reflexão uma merda. Mas... Esse "mas" também complica tudo. Enfim, em vez do famoso frio na barriga, o amor pode tornar sua vida um nicho de paranóias e vacilos infindáveis que mutilam a sua sanidade mental e provoca o flagelo do outro. Ele pode transformar você, um simples cidadão instigado, em uma esfinge que além de devorar o outro, se autodevora devido a falta de sensibilidade hermética de compreender que o passado de qualquer um configura-se em vivências efetuadas por pessoas aparentemente livres que vivem uma vida sem muito zelo moral pelo futuro. Daí, uma hora a conta chega em forma de confronto, contradição, mentira, constrangimento e vergonha. Vergonha do outro ou do passado sem zelo? E eu achava que era amor e era tudo isso: sofrimento, medo e covardia. Afinal, como bem lembrou Bukowski: "o amor é um cão dos diabos".

terça-feira, 30 de julho de 2019

Talvez

Gosto do termo "talvez", pois segue uma pegada esperançosa e deixa transparecer uma dose de oportunidade e conveniência, bem como foge daquele vício extremista do clássico 8 ou 80. A vida é sim um talvez e isso não significa confusão. O talvez não tem nada a ver com o "não saber o que quer". Significa apenas que as possibilidades estão aí e que elas existem. Como estamos em rede, como somos humanos e , deveras, sociais, os arranjos são múltiplos e não cabe atitudes ortodoxas e categóricas. Quem ensaia atitude xiita no trato com o outro, em diferentes aspectos, principalmente quando envolve sentimentos, o faz por insegurança ou defesa. E isso está muito bem demarcado para a minha pessoa. Alguns preferem fugir em atos pensados, ilustrados por um comportamento raivoso, excludente e severo consigo mesmo. Talvez eu realmente tenha que abster-me de "minha vida", deixar de mão tudo aquilo que outrora sonhei "franciscanear caetaneamente" de maneira esplendorosa. Talvez eu deva me conformar com a possibilidade do desapego ao longo do tempo. Porém, é difícil superar a saudade e a vontade daquilo que já se sabe que gosta. Por isso que defendo a permanência do "talvez" no tempo histórico fugaz em contexto indefinido, pois o indeterminado subjaz a eloquência do ir e vir das auroras flutuantes de um talvez eterno nos corações daqueles que ousaram ultrapassar a barreira dos incautos em solenidade atípica e descriptografada do eterno amor.

domingo, 28 de julho de 2019

Domingo

Noite de domingo é quase sempre a mesma coisa.  É um momento estranho esse silêncio em excesso, onde as vidas - essas pluralidades exacerbadas - deveriam estar paradas. Mas sou eu que estou na areia movediça... Ábdito sem a líbido da existência. É tudo muito sepulcral,  estilo darkroom da ironia tipificada. Se vai, eu não estou aí, se vai, não vou me iludir. Se vai, no quadrado maior da cidade, a cerveja não é ingerida com maciez. Sem calor, a cevada não desce com destreza. Meu corpo frio anuncia a armagura em seguir semoto, em pensamentos insalubres, diante de dissabores de práticas infantis. Não adianta fingir distância e se assegurar em bloqueios indolores, pois "ideias verdes incolores dormem furiosamente". Não adianta demarcar o indefinido. A história nunca será maquiada, diante do ontem, do hoje e do "pra sempre". Mesmo que este dia passe e, na lógica, amanhã seja segunda, o dia continuará assim sem rumo e "no alto da tua sombra, a prumo sobre a inconstância irreal de vida e dias, achei-me só e vi que as agonias da vida, o tédio as finda e a morte as cobre" [Fernando Pessoa].