domingo, 3 de fevereiro de 2019

Sabrina


Quantos João de Deus existem por aí, em plena ação na surdina, que agem na calada da noite, que se aproveitam da confiança cativa nos cantos obscenos de berços esplêndidos de Marias e Joanas? Quantas Sabrinas Bittencourts nós teremos que apaziguar, na gastura de uma imensidão silenciada por uma onda de gerações de repressores e oprimidos que naturalizam e perpetuam a lógica patriarcal e machista vigente? Quantas Anas ainda ceifarão à míngua, por serem vítimas de atos que mutilam a alma e a dignidade exaradas pelas mãos invisíveis que agem no asilo da escuridão, bem próximo ao amanhecer... Sobre o manto sagrado, algumas vezes, guiados pela fé em rastros delirantes de cânticos idílicos e batas da paz, em seus diferentes segmentos e vertentes, agride-se com a mão direita e remedia-se com a mão esquerda a fleuma que não podemos ver. Ora e fingimos cegueira, ora e não denuncia-se, ora e damos uma chance ao ente, ora e deixa nas mãos do senhor, ora... ora! Quem ver cara não enxerga o assédio, não vislumbra o abuso inocente e a ferida exposta no olhar sublime, subjacente ao sorriso falso, sem graça e sem vida, que tenta disfarçar o trauma vivenciado em algum momento da vida, entre desejos e reparações, entre sonhos e pesadelos, entre a morte e a vida, Severina... “Choram as rosas porque não quero estar aqui [...] e entre outras coisas, eu choro por ti”, Sabrina Bittencourt.

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