segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ela


Quando ela era adolescente, sonhava em ser mulher, no sentido lato da palavra empunhada nas tramas musicais excedidas por Nelson Gonçalves. Mas a questão de gênero firmava-se no epicentro de sua formação ideológica e impossibilitava o teu Ser de ser o que os outros idealizaram um dia em sonho. Ela vivia no berço esplêndido de uma sociedade apaziguada, que chorava o leite derramado de uma atmosfera decadente, pautada no pensamento em conserva que Chico Buarque ousou cutucar com vara curta, afugentando brilhos eternos de um espírito adormecido desde a década de 30 do século passado, temerária a personalidades e sutilezas psíquicas maduras e ultrajantes para a sua época, pois ameaçavam o status quo.

A essa altura os humanos já haviam matado o seu lado mais selvagem, estraçalhando seus sentidos e emoções essencialmente profundas e cruéis, de maneira sórdida, estilo Kill Bill de Quentin Tarantino. Ela não acreditava mais em si, pois tudo que via era o triste fim, a ponto de se comparar a Madame Bovary, só que menos inocente e mais politizada. Em razão desse senso crítico e racional de gabinete, a lapada do chicote empunhado pelo olhar julgador das coleguinhas, em tuas costas nuas, era sempre mais forte.

O impacto do couro à carne viva da pele sensível de uma linda flor fazia enrijecer os dentes límpidos da menina romanesca, que na ânsia por argúcia e formação epistêmica, se deixou levar pelas correntezas eloquentes do movimento progressista da modernidade mundo. Quanto mais ela lutava, quanto mais ela decidia esmurrar a ponta da foice em um ato de quase rebeldia, mais eu adentrava para além do estado da arte do arrebatamento, com a força memorável da personagem cardeal da história de Anne Frank. 

Ela e mais sete amigas de infância reuniram-se, acalentadas pela sintonia conveniente e oportuna da afinidade política, e decidiram partir para a luta. Entre idas e vindas, festas e conventos, águas e paratis, apegos e desaferros, construíram o mais ousado dos manifestos, sob o manto sagrado de Frida Kahlo e os nortes teóricos de Simone de Beauvoir. Quando o progenitor da menina criada para ser princesa Barbie avistou aquela mocinha panfletando no final do expediente, na esquina do seu trabalho no centro da cidade, o coronel não titubeou - agiu em nome do pai, do filho e do espírito santo patriarcal, em uma verdadeira ofensiva conservadora - e foi tirar satisfação com a mãe da petulante púbere que sonhava em ser mulher.

- Ailéma Eclesiastes, cadê a sua filha? Eu acabei de vê-la nas esquinas perigosas da história, fazendo baderna e provocando a anarquia às margens plácidas! O que você fez com ela mulher? A culpa é sua! Brandou o senhor Cavalcanti Eclesiastes.

Diante das investidas do patriarca, a senhora Ailéma agiu como de costume, e afirmou que a filha foi um mero erro divino, em razão disso, eles deveriam aceitá-la como qualquer outro filho problemático e doente, pois Deus apresentara uma provação a sua entidade familiar.

- Ela é a nossa provação maior Cavalcanti. Tome tento... Seja paciente com a nossa filha, pois ela é fruto do nosso amor.

- Não dá Ailéma. É impossível aceitá-la dessa forma. Eu achei uma coisa mais amarga do que a morte, a mulher cujo coração são redes e laços, e cujas mãos são ataduras. Além do mais, ela é muito petulante para uma pessoa do sexo feminino. Veja, a mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição.

O senhor Cavalcanti Eclesiastes, típica caricatura do bom cristão, tinha a mania de proferir frases prontas retiradas da bíblia, a ponto de não conseguir reconhecer o que era seu e o que era bíblico.  Ele tinha uma visão bastante rigorosa sobre a vida e sobre as coisas do mundo. Não concebia, em hipótese alguma, a procrastinação da ala juvenil, a emancipação das mulheres e a modernidade líquida do século XXI. Suas memórias estavam depositadas nos alhures da ação integralista de 1930 e, por isso, combatia ferozmente discursos comunistas e ações tidas como anarquistas, sobretudo aqueles ideários defendidos por sua filha única, a fã número 1 (um) de Laudelina de Campos Melo e Chimamanda Ngozi Adichie. No final de tudo, ela só queria ser um Ser, sem classificações, sem rótulos, sem imposições, sem submissões. Mas eles não compreendiam.

Um comentário:

  1. Prezado,
    Tema digno de ser tratado. Muitos acreditam que essa visa machista não existe e nunca existiu. O lugar da mulher, construído socialmente, visto como natural.

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