Quando
ela era adolescente, sonhava em ser mulher, no sentido lato da palavra
empunhada nas tramas musicais excedidas por Nelson Gonçalves. Mas a questão de
gênero firmava-se no epicentro de sua formação ideológica e impossibilitava o
teu Ser de ser o que os outros idealizaram um dia em sonho. Ela vivia no berço
esplêndido de uma sociedade apaziguada, que chorava o leite derramado de uma
atmosfera decadente, pautada no pensamento em conserva que Chico Buarque ousou
cutucar com vara curta, afugentando brilhos eternos de um espírito adormecido
desde a década de 30 do século passado, temerária a personalidades e sutilezas
psíquicas maduras e ultrajantes para a sua época, pois ameaçavam o status quo.
A
essa altura os humanos já haviam matado o seu lado mais selvagem, estraçalhando
seus sentidos e emoções essencialmente profundas e cruéis, de maneira sórdida,
estilo Kill Bill de Quentin Tarantino. Ela não acreditava mais em si, pois tudo
que via era o triste fim, a ponto de se comparar a Madame Bovary, só que menos
inocente e mais politizada. Em razão desse senso crítico e racional de
gabinete, a lapada do chicote empunhado pelo olhar julgador das coleguinhas, em
tuas costas nuas, era sempre mais forte.
O
impacto do couro à carne viva da pele sensível de uma linda flor fazia
enrijecer os dentes límpidos da menina romanesca, que na ânsia por argúcia e
formação epistêmica, se deixou levar pelas correntezas eloquentes do movimento
progressista da modernidade mundo. Quanto mais ela lutava, quanto mais ela
decidia esmurrar a ponta da foice em um ato de quase rebeldia, mais eu
adentrava para além do estado da arte do arrebatamento, com a força memorável
da personagem cardeal da história de Anne Frank.
Ela
e mais sete amigas de infância reuniram-se, acalentadas pela sintonia
conveniente e oportuna da afinidade política, e decidiram partir para a luta.
Entre idas e vindas, festas e conventos, águas e paratis, apegos e desaferros,
construíram o mais ousado dos manifestos, sob o manto sagrado de Frida Kahlo e
os nortes teóricos de Simone de Beauvoir. Quando o progenitor da menina criada
para ser princesa Barbie avistou aquela mocinha panfletando no final do
expediente, na esquina do seu trabalho no centro da cidade, o coronel não
titubeou - agiu em nome do pai, do filho e do espírito santo patriarcal, em uma
verdadeira ofensiva conservadora - e foi tirar satisfação com a mãe da
petulante púbere que sonhava em ser mulher.
-
Ailéma Eclesiastes, cadê a sua filha? Eu acabei de vê-la nas esquinas perigosas
da história, fazendo baderna e provocando a anarquia às margens plácidas! O que
você fez com ela mulher? A culpa é sua! Brandou o senhor Cavalcanti
Eclesiastes.
Diante
das investidas do patriarca, a senhora Ailéma agiu como de costume, e afirmou
que a filha foi um mero erro divino, em razão disso, eles deveriam aceitá-la
como qualquer outro filho problemático e doente, pois Deus apresentara uma
provação a sua entidade familiar.
-
Ela é a nossa provação maior Cavalcanti. Tome tento... Seja paciente com a
nossa filha, pois ela é fruto do nosso amor.
-
Não dá Ailéma. É impossível aceitá-la dessa forma. Eu achei uma coisa mais
amarga do que a morte, a mulher cujo coração são redes e laços, e cujas mãos
são ataduras. Além do mais, ela é muito petulante para uma pessoa do sexo
feminino. Veja, a mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição.
O
senhor Cavalcanti Eclesiastes, típica caricatura do bom cristão, tinha a mania
de proferir frases prontas retiradas da bíblia, a ponto de não conseguir
reconhecer o que era seu e o que era bíblico.
Ele tinha uma visão bastante rigorosa sobre a vida e sobre as coisas do
mundo. Não concebia, em hipótese alguma, a procrastinação da ala juvenil, a
emancipação das mulheres e a modernidade líquida do século XXI. Suas memórias
estavam depositadas nos alhures da ação integralista de 1930 e, por isso,
combatia ferozmente discursos comunistas e ações tidas como anarquistas,
sobretudo aqueles ideários defendidos por sua filha única, a fã número 1 (um)
de Laudelina de Campos Melo e Chimamanda Ngozi Adichie. No final de tudo, ela
só queria ser um Ser, sem classificações, sem rótulos, sem imposições, sem
submissões. Mas eles não compreendiam.
Prezado,
ResponderExcluirTema digno de ser tratado. Muitos acreditam que essa visa machista não existe e nunca existiu. O lugar da mulher, construído socialmente, visto como natural.